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Neurodiversidade • Inclusão • Sociedade

Por que muitos autistas entendem tudo ao pé da letra?

Entenda o pensamento literal no autismo e como ele influencia a comunicação e a vida cotidiana "Hoje vai chover canivete." Quando ouvi essa frase na escola, não achei graça. Olhei para o céu esperando que canivetes começassem a cair. Fiquei imaginando como as pessoas conseguiriam se proteger. O mais estranho era que ninguém parecia preocupado. Meus colegas continuavam brincando, rindo e conversando como se nada estivesse acontecendo. Enquanto todos entendiam que aquilo era apenas uma expressão popular, eu tentava compreender como alguém podia falar de um perigo tão grande com tanta naturalidade. Naquele momento, eu não sabia, mas estava vivenciando uma característica comum em muitas pessoas autistas: o pensamento literal . Anos mais tarde, após compreender melhor o autismo, percebi que eu não era ingênuo nem exagerado. Meu cérebro simplesmente interpretava as palavras de uma forma diferente. Essa maneira de compreender a linguagem não significa falta de inteligência. Também n...
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TEA também pode ser enquadrado na Lei de Cotas? O que descobri no novo Manual do Ministério do Trabalho

Quando recebi meu diagnóstico de Síndrome de Asperger, anos atrás, nunca imaginei que um dia estaria estudando a legislação sobre inclusão de pessoas com deficiência. Como muitos autistas adultos, ouvi opiniões diferentes ao longo do tempo. Algumas pessoas diziam que quem tinha "Asperger" não era considerado pessoa com deficiência. Outras afirmavam exatamente o contrário. Essa dúvida me acompanhou durante anos. Recentemente, ao ler o Manual de Elaboração de Laudos Caracterizadores de Deficiência para fins de enquadramento na Lei de Cotas , publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 2025, encontrei uma informação que considero muito importante. O manual afirma que pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) , inclusive aquelas anteriormente diagnosticadas com Síndrome de Asperger , autismo de alto desempenho ou TEA Nível 1 de suporte , podem ser enquadradas para fins da Lei de Cotas, desde que atendidos os critérios técnicos previstos para a caracterização da def...

Por que "Asperger" está no nome deste blog?

Conheça o que era a Síndrome de Asperger, por que hoje ela faz parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e como o diagnóstico tardio transformou a maneira como compreendi minha própria história. Seja bem-vindo ao Meu Lado Asperger Se esta é a sua primeira visita, talvez uma pergunta tenha surgido imediatamente: "Se a Síndrome de Asperger não é mais um diagnóstico oficial, por que ela está no nome deste blog?" A resposta está na minha própria história. Durante muitos anos, pessoas com determinadas características do autismo receberam o diagnóstico de Síndrome de Asperger . Com a atualização da classificação médica, esse diagnóstico passou a fazer parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) . Eu recebi meu diagnóstico tardio dentro desse contexto. Embora a medicina utilize hoje o termo Transtorno do Espectro Autista , muitas pessoas continuam usando a palavra Asperger para descrever sua trajetória, sua identidade ou o diagnóstico que receberam no passado. Por esse motiv...

Quando a conversa acaba, ela continua na minha cabeça

Para muitas pessoas, uma conversa termina quando elas vão embora. Elas se despedem, seguem o caminho de casa e, pouco tempo depois, já estão pensando em outras coisas. Comigo, às vezes, acontece diferente. A conversa termina do lado de fora. Mas continua acontecendo dentro da minha cabeça. Recentemente, levei meu saxofone ao técnico para corrigir alguns problemas de regulagem. Havia um desalinhamento na mesa das chaves e algumas folgas na mecânica, que provocavam pequenos vazamentos de ar e comprometiam a resposta do instrumento. Enquanto ele examinava cuidadosamente o saxofone e fazia os ajustes necessários, começamos a conversar. Falamos sobre música, instrumentos, experiências e diversos outros assuntos que surgiram naturalmente. Foi uma conversa agradável. Nada de extraordinário aconteceu. Não houve discussão, constrangimento ou qualquer situação desagradável. Voltei para casa satisfeito por saber que o instrumento voltaria a responder como deveria. Mas, curiosamente, o que continu...

Como Conheci Minha Esposa: Amor, Autismo e o Tempo de Deus

Durante muitos anos, eu tinha três objetivos na vida: conseguir um trabalho estável, ter uma casa e construir uma família. Eu orava a Deus pedindo essas coisas, mas havia uma dificuldade que eu não compreendia. Eu não entendia o mundo feminino e tinha grande dificuldade para interpretar relacionamentos e sinais sociais. Naquela época, eu ainda não sabia que era autista. O diagnóstico só viria muitos anos depois. Eu conhecia minhas dificuldades, mas não entendia suas causas. Sabia que era diferente das outras pessoas, porém não conseguia explicar exatamente por quê. Sempre fui mais reservado, observador e solitário. Desde a infância, tinha dificuldade para olhar nos olhos das pessoas, compreender regras sociais não ditas e participar de conversas em grupo. Ambientes barulhentos me deixavam desconfortável, e eu precisava de momentos de silêncio para me sentir bem. Também tinha dificuldade para perceber sentimentos, intenções e sinais emocionais. Muitas vezes não entendia quando alguém es...

Palavras que não fazem sentido

Quando eu descobri que as pessoas nem sempre falam o que querem dizer Uma das coisas mais difíceis para mim durante a infância era entender quando as pessoas falavam uma coisa, mas queriam dizer outra. Para muitas pessoas isso parece natural. Elas compreendem expressões populares, metáforas, ironias e brincadeiras sem precisar pensar muito. Para mim não era assim. Lembro-me de um episódio que aconteceu quando eu estudava no Ensino Fundamental I. Certo dia ouvi alguém dizer: — Está chovendo canivete lá fora. Fiquei assustado. Eu sabia o que era um canivete. Sabia que era um objeto cortante e perigoso. Na minha imaginação infantil, comecei a pensar em como seria possível que canivetes estivessem caindo do céu. Será que alguém poderia se machucar? Será que era seguro sair de casa? Somente depois percebi que aquela frase não deveria ser entendida literalmente. Era apenas uma forma popular de dizer que estava chovendo muito forte. Naquela época eu não sabia que era autista. Eu apenas perceb...

O Cansaço de Parecer Normal

Parecer normal é muito cansativo. As pessoas esperam que eu corresponda às suas expectativas. Fazem perguntas, apresentam demandas e, muitas vezes, falam de assuntos sobre os quais eu não faço a menor ideia. Em diversos momentos, minha primeira reação é pensar: "Eu não sei responder isso." Explicar que não entendi ou que não conheço determinado assunto também exige energia. Por isso, muitas vezes sigo outro caminho. Eu pesquiso. Procuro informações, leio documentos, busco exemplos, comparo dados e tento compreender aquilo que inicialmente parecia impossível para mim. Esse processo exige um esforço mental enorme. Enquanto algumas pessoas parecem responder automaticamente, eu preciso construir a resposta passo a passo dentro da minha mente. O mais curioso é que, muitas vezes, consigo. Depois de estudar e pesquisar, descubro que era capaz de entender aquele assunto e atender aquela demanda. Surge então uma sensação de satisfação. Não porque eu sabia a resposta desde o início, ma...

Meu contato visual

Contato visual: o que realmente significa para mim, autista Desde que eu era criança, olhar diretamente nos olhos de outras pessoas sempre foi incômodo, e não por falta de interesse ou educação, como muitos pensam. O que acontece comigo (e com muitas outras pessoas autistas) não é desinteresse: é sobrecarregar o cérebro . Para muitas pessoas neurotípicas, o olhar nos olhos é um sinal natural de atenção, conexão ou sinceridade. Mas, para mim, manter o contato visual significa que meu cérebro precisa dividir energia entre: ouvir e entender quem fala comigo, pensar na resposta, gerenciar minhas emoções e sensações, e, ao mesmo tempo, sustentar o olhar. Esse “dividir energia” torna tudo mais difícil, às vezes tanto que acabo perdendo partes da conversa ou ficando confuso sobre o que ouvi. Para conseguir prestar atenção de verdade, frequentemente eu desvio o olhar para um ponto neutro: o chão, a mesa, ou apenas um espaço vazio. Assim consigo escutar melhor e me concentrar no que está sen...

Feliz Natal

Jesus veio para todos, sem exceções Jesus não veio apenas para quem se considera perfeito. Nem só para quem se vê como inteligente, bem-sucedido ou espiritualmente correto. Jesus veio para todas as pessoas . Veio para quem carrega limites, dúvidas e fragilidades. Para quem convive com falhas humanas, como qualquer outro ser humano. Para quem tem um “espinho na carne”, não como defeito, mas como parte de uma história real, vivida com esforço e coragem. No Evangelho, ninguém é medido por desempenho, produtividade ou aparência de sucesso. O amor de Cristo não estabelece rankings, não compara, não exclui. Jesus não propõe apagar quem somos para nos tornar aceitáveis. Ele propõe caminhar conosco, oferecendo sentido, cuidado e amor no meio daquilo que somos e vivemos. A imperfeição, à luz do amor de Cristo, não é condenação. É espaço de encontro. Não é sinal de fracasso. É parte da experiência humana. Superar, na fé cristã, não significa negar limites ou forçar transformações para caber em p...

O trabalho do sociólogo na sociedade: reflexões de um autista formado em Ciências Sociais

Você já parou para pensar o que exatamente faz um sociólogo? Muita gente acha que é só teoria, que é coisa distante da vida real. Eu mesmo, quando escolhi cursar Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina (UEL), ouvia piadinhas e dúvidas do tipo: “E vai trabalhar com o quê?” Hoje, com meu diploma nas mãos e minha experiência pessoal como autista diagnosticado na vida adulta, posso dizer: o sociólogo estuda a sociedade para transformá-la. E isso é mais necessário do que nunca. O que faz um sociólogo? O sociólogo observa, analisa e interpreta os comportamentos humanos em grupo. Ele não vê o mundo como algo fixo, mas como algo que muda o tempo todo: costumes, relações de poder, desigualdades, religiões, instituições, trabalho, educação... tudo isso está dentro do olhar sociológico. Mais do que entender o mundo, o sociólogo tenta questioná-lo . Por que as coisas são como são? Por que existem tantas injustiças? Por que algumas vozes são silenciadas? E o mais importante: o que pod...

Supermercado, ruído e ansiedade: quando o mundo exagera nos estímulos

Ir ao supermercado deveria ser simples. Mas, para quem está no espectro autista, como eu, essa tarefa pode se transformar em um gatilho de sobrecarga sensorial e emocional. Outro dia, precisei ir ao mercado comprar algumas coisas rápidas. Entrei tranquilo. Mas, em poucos segundos, os sons e os estímulos começaram a se multiplicar: música alta, caixas falando ao mesmo tempo, crianças chorando, freezers estalando, luzes piscando, cheiros fortes, empilhadeiras apitando... Tudo isso junto. Tudo isso ao mesmo tempo. Para quem é autista, especialmente com perfil Asperger como o meu, o que para muitos passa despercebido, para nós pode parecer uma avalanche sensorial. E ali eu estava: tentando manter a “normalidade”, segurando a ansiedade, fingindo que estava tudo bem, mas por dentro, em colapso. Peguei o que precisava e fui embora o mais rápido que pude. Na saída, o que veio foi o alívio...  O que essa experiência me ensinou? Que meus limites precisam ser respeitados, primeiro por mim. Qu...

Universo Social: entre regras, vivências e a construção de um mundo possível

Sempre acreditei que, para viver em sociedade, precisamos encontrar um equilíbrio entre o que sentimos por dentro e o que o mundo espera de nós. Para mim, que sou autista diagnosticado tardiamente, entender esse “universo social” nunca foi simples. Eu não aprendi com naturalidade a “ler” as regras não ditas da convivência. Desde pequeno, o barulho das conversas, o toque inesperado, os olhares longos, tudo isso me causava um incômodo que poucos compreendiam. Mas ao longo da vida, fui percebendo que a sociedade também é feita de normas que ajudam a manter esse equilíbrio. Normas que, embora às vezes nos pareçam duras ou desconectadas de nossa essência, existem para evitar o caos e nos proteger. O sociólogo Émile Durkheim chamou isso de "coesão social", e explicou que quando essas regras se rompem, entramos num estado de desordem: chamado anomia. Já vivi isso no meu mundo interior, quando sentia que tudo estava confuso, e também observei em ambientes públicos e profissionais, qu...

Autistas de Alto Funcionamento: Características e Desafios do TEA Nível 1

O termo “autismo de alto funcionamento” é popularmente usado para se referir a pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5 (APA, 2013). Esses indivíduos apresentam autonomia em várias atividades diárias e, muitas vezes, habilidades cognitivas acima da média. Anteriormente, muitos desses casos eram classificados como Síndrome de Asperger, conforme descrito por autores como Teixeira (2005) e Soares & Brito (2024). Contudo, mesmo com essa aparente “funcionalidade”, os autistas de nível 1 continuam enfrentando desafios significativos nas áreas de comunicação social, sensorialidade, linguagem pragmática e adaptação emocional, aspectos frequentemente invisíveis aos olhos de quem observa apenas a performance exterior. Habilidades Cognitivas Superiores É comum que esses autistas apresentem talentos em áreas como matemática, música, memorização, programação ou escrita. O pesquisador S...

Uma jornada de silêncio, Som e Serviço Público

  Desde criança, carrego comigo uma característica que muitos não compreendem: o silêncio. Não o silêncio da paz, mas o da introspecção, do isolamento, do ruído interno que grita enquanto o mundo lá fora fala alto demais. Na escola, nas reuniões de família, nos aniversários — eu sempre preferi observar a participar. A confusão dos sons, os olhares cruzados, a exigência de falar para ser aceito... tudo isso me sufocava. Eu era o menino quieto, que fugia das interações sociais. Só que havia algo que me conectava com o mundo, sem me obrigar a enfrentá-lo de frente: o desenho e a música. Foi na música que encontrou sua voz. Primeiro no violão... depois com o saxofone. O Som Que Me Libertou Foi no saxofone e no violão que encontrei uma linguagem própria. As notas diziam o que eu não conseguia expressar. A música não cobrava contato visual, não exigia respostas rápidas, não julgava meu jeito de ser. Ela me salvou. Me ajudou a conquistar o pouco de convivência que tenho hoje com as pessoa...