O que acontece dentro de mim enquanto o mundo acontece lá fora
Existe um lugar onde passo boa parte do meu tempo, mesmo quando estou cercado de pessoas.
Esse lugar não tem paredes nem portas. Ele existe dentro de mim.
Por fora, posso estar trabalhando, conversando, tocando meu saxofone, tocando violão ou simplesmente em silêncio. Por dentro, porém, existe muita coisa acontecendo.
Pensamentos se cruzam. Sons são percebidos. Situações são analisadas. Informações são organizadas. Algumas palavras continuam sendo processadas mesmo depois que uma conversa terminou.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar sobre o autismo adulto:
o silêncio externo nem sempre significa silêncio interno.
O que acontece dentro de mim
Meu jeito de perceber o mundo foi sendo construído ao longo da vida. Minha história, minha personalidade, minhas experiências e também o autismo fazem parte dessa construção.
O hiperfoco, a sensibilidade aos estímulos, a literalidade e a necessidade de organização influenciam a maneira como percebo determinadas situações.
Não vejo isso simplesmente como defeito.
É uma maneira diferente de receber e organizar o mundo.
Às vezes preciso de mais tempo para entender uma situação. Em outras, preciso ficar sozinho para reorganizar meus pensamentos.
Posso gostar de conversar e, ao mesmo tempo, precisar de silêncio.
Posso gostar das pessoas e ainda assim precisar de momentos de recolhimento.
Isso não significa falta de interesse.
Significa apenas que meu funcionamento é diferente.
O esforço que nem sempre aparece
Existe também um lado do autismo que nem sempre é percebido.
Algumas situações aparentemente simples podem exigir bastante processamento interno.
Observar o ambiente, interpretar uma conversa, entender uma expressão, escolher as palavras, lidar com um barulho ou mudar inesperadamente de uma atividade para outra.
Por fora, talvez ninguém perceba esse esforço.
Por dentro, estou tentando organizar tudo.
Isso me faz pensar em algo importante: muitas vezes, as pessoas enxergam apenas o comportamento, mas não conseguem enxergar o esforço que existe por trás dele.
O tempo dentro da minha cabeça
Outra característica que percebo em mim é que algumas situações continuam acontecendo dentro da minha cabeça mesmo depois que terminaram.
Uma conversa pode acabar, mas eu ainda posso lembrar de uma frase, pensar em uma expressão ou tentar compreender melhor determinado momento.
Não significa necessariamente ficar preso ao passado.
É uma forma de continuar processando aquilo que vivi.
O mesmo pode acontecer com o futuro.
Antes de uma situação acontecer, posso imaginar possibilidades, pensar no que precisarei fazer e tentar me preparar.
É como se meu universo interior tivesse seu próprio ritmo.
Enquanto o mundo segue em frente, algumas coisas continuam sendo organizadas dentro de mim.
Meu universo também é criação
Mas meu universo interior não é feito apenas de dificuldades.
É também onde nascem minhas ideias, minha curiosidade, minha escrita e minha música.
É onde começo a pensar sobre as coisas que depois transformo em palavras.
É onde uma música pode começar antes de chegar ao saxofone ou ao violão.
É onde surgem perguntas que me fazem querer compreender melhor as pessoas e a sociedade.
Por isso, não quero enxergar meu mundo interior apenas como algo que preciso controlar.
Ele também faz parte daquilo que sou.
Quando os dois lados se encontram
Talvez eu perceba isso melhor quando toco música.
A música começa dentro de mim, mas depois ganha o mundo.
Primeiro existe a intenção, a memória, a percepção dos sons e a organização dos movimentos.
Depois, tudo se transforma em ação.
O instrumento cria uma ponte entre aquilo que sinto e aquilo que consigo expressar.
Por alguns instantes, parece existir menos distância entre o meu mundo interior e o mundo exterior.
E isso é especial.
Cada pessoa tem seu próprio universo
Com o tempo, também percebi que isso não acontece apenas comigo.
Cada pessoa carrega um universo que os outros nem sempre conseguem enxergar.
Alguém pode estar sorrindo e enfrentando uma preocupação.
Outra pessoa pode estar quieta e pensando em muitas coisas.
Alguém pode parecer distante e estar apenas cansado.
A sociedade é formada pelo encontro desses universos.
Família, trabalho, escola, comunidade e outros espaços fazem parte dessa convivência.
Como bacharel em Ciências Sociais, aprendi a observar como a sociedade influencia nossas maneiras de pensar e agir.
Mas também aprendi que não somos apenas produtos da sociedade.
Nós também podemos influenciá-la.
Mesmo com meu jeito diferente de perceber algumas situações, tenho algo a oferecer.
Trabalho, estudo, escrevo, crio, toco música e compartilho minhas experiências.
Também faço parte desse mundo.
Nem tudo precisa sair para fora
Talvez uma das coisas que estou aprendendo sobre mim seja que nem tudo o que acontece dentro de mim precisa imediatamente virar palavra.
Alguns pensamentos precisam de tempo.
Algumas situações precisam ser compreendidas antes de serem explicadas.
E nem todas as portas do meu universo precisam estar abertas para todo mundo.
Algumas podem permanecer fechadas.
Outras podem ser abertas aos poucos.
Talvez escrever seja justamente uma dessas portas que escolhi abrir.
Quando escrevo, não mostro tudo.
Escolho uma parte do meu universo para compartilhar.
O silêncio também pode ser escolha
Durante muito tempo, o silêncio pode ser confundido com ausência.
Hoje vejo de outra maneira.
Meu silêncio pode ser observação.
Pode ser reflexão.
Pode ser descanso.
Pode ser organização.
Pode ser simplesmente o meu jeito de estar presente.
Não preciso preencher todos os espaços com palavras para provar que estou participando.
Também tenho direito ao meu espaço interno.
Não preciso abandonar meu universo
Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que venho aprendendo:
não preciso abandonar meu universo interior para viver no mundo exterior.
Preciso aprender a fazer os dois conversarem.
Meu mundo interior me dá profundidade.
O mundo exterior me oferece experiências.
Meu silêncio me permite pensar.
A convivência me permite aprender.
O autismo traz desafios reais. Mas também faz parte da maneira como percebo, penso e experimento a vida.
Não quero romantizar as dificuldades.
Também não quero enxergar apenas as dificuldades.
Existe muito mais em mim do que o diagnóstico.
O meu lado no espectro
É por isso que este blog existe.
Não para falar por todas as pessoas autistas.
Não para explicar o autismo inteiro.
E muito menos para apresentar uma fórmula de como um autista deve viver.
Escrevo para falar do meu lado do espectro.
Do meu jeito de perceber.
Do meu jeito de pensar.
Das minhas dificuldades.
Das minhas descobertas.
Daquilo que aprendi sobre mim ao longo da vida.
Meu universo não é melhor nem pior que o de ninguém.
Ele é apenas meu.
E talvez seja isso que eu queira compartilhar aqui.
O mundo é feito de muitos universos.
Eu tenho o meu.
Você tem o seu.
E talvez uma sociedade verdadeiramente inclusiva comece quando entendermos que nem todos precisam sentir, pensar ou se expressar da mesma maneira para merecer respeito.
Por fora, posso estar em silêncio.
Por dentro, existe um universo inteiro acontecendo.
Esse é o meu universo no espectro.
E esta é uma pequena parte dele que hoje escolhi compartilhar.
Vilmar
Sobre o autor
Vilmar Francisco de Oliveira é escritor, bacharel em Ciências Sociais e servidor público da Prefeitura de Londrina desde 2012.
Autista adulto, escreve sobre experiências, percepções e descobertas relacionadas ao autismo a partir da própria trajetória.
Também é músico instrumentista e utiliza a escrita para transformar pensamentos e experiências em palavras.
No Meu Lado Asperger, compartilha seu olhar sobre o autismo adulto de forma pessoal, simples e positiva, sem esconder os desafios, mas também sem reduzir sua história a eles.
Porque falar sobre autismo também é falar sobre identidade, trabalho, relações, criatividade, silêncio, descobertas e sobre a experiência de simplesmente existir sendo quem se é.

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