Há um momento em que o silêncio nos protege, mas também nos isola. Onde o hábito nos abraça, mas também nos sufoca. Foi nesse ponto que comecei a entender o que significa sair da zona de conforto, não como um salto heroico, mas como um gesto pequeno, íntimo e sincero. Um passo de cada vez, como fez o Pequeno Príncipe ao deixar seu asteroide B-612.
Ele amava sua rosa, cuidava de seus vulcões, vivia em seu mundinho seguro. Mas algo dentro dele dizia que era hora de partir. E essa partida dói. A gente se apega até à solidão que já conhece. Eu mesmo levei décadas até entender que o isolamento que me parecia confortável era, na verdade, medo. Medo de ser julgado por ser diferente. Medo do barulho das pessoas. Medo de não saber o que dizer nas conversas.
Assim como o Pequeno Príncipe conheceu planetas com adultos estranhos, o vaidoso, o bêbado, o homem de negócios, eu também encontrei muitos mundos sociais nos quais não me encaixava. Fui o menino calado nas rodas de conversa. O adolescente que preferia conversar com livros e desenhos. O adulto que ainda sente um nó na garganta ao precisar falar em público. Mas também fui aquele que, como o príncipe, aprendeu com a raposa que “o essencial é invisível aos olhos”. E, acima de tudo, que só se conhece verdadeiramente aquilo que se cativa.
Na minha vida, sair da zona de conforto foi aprender a cativar pessoas. E também me deixar ser cativado. Foi aceitar que não preciso ser perfeito para ser amado. Que meu jeito diferente de sentir e perceber o mundo não é uma falha, é só um outro planeta, com outra lógica, outra sensibilidade.
Tive que me despedir de muitos medos, assim como o príncipe se despediu da rosa. Mas como ele, eu também voltei. Voltei para dentro de mim mesmo com mais maturidade, com mais compaixão por quem fui e coragem para continuar.
Minha zona de conforto era o silêncio. Mas aprendi a escutar o mundo.
A rosa do Pequeno Príncipe dizia: "É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas." Na minha vida, suportar as "larvas" foi enfrentar a ansiedade social, o julgamento alheio, a dificuldade de explicar o que eu sentia sem me perder nas palavras. Mas valeu a pena. Porque também conheci borboletas: minha esposa, que me entende mesmo nos silêncios. A música, que me ajudou a me comunicar quando a fala falhava. E a escrita, esse lugar onde posso ser inteiro sem pedir licença.
Conclusão – Quando o asteroide se torna pequeno demais
A zona de conforto é como o asteroide B-612: pode ser o nosso lar, mas também pode se tornar pequeno demais para os sonhos que carregamos. Assim como o Pequeno Príncipe precisou partir para entender o valor do que tinha, eu precisei me lançar para fora do meu mundo silencioso e solitário para perceber que existia beleza na troca, mesmo com toda a dificuldade que ela traz.
Hoje, não fujo mais das pessoas, mas também não me forço a estar onde meu coração não alcança. Aprendi que sair da zona de conforto não é se violentar, mas se escutar profundamente. E, quando o momento certo chega, dar um passo gentil rumo ao desconhecido.
Porque, no fim das contas, “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”, mas também corre o risco de finalmente viver.
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Por Vilmar Francisco Autista

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