Durante muitos anos, eu tinha três objetivos na vida: conseguir um trabalho estável, ter uma casa e construir uma família. Eu orava a Deus pedindo essas coisas, mas havia uma dificuldade que eu não compreendia. Eu não entendia o mundo feminino e tinha grande dificuldade para interpretar relacionamentos e sinais sociais.
Naquela época, eu ainda não sabia que era autista. O diagnóstico só viria muitos anos depois. Eu conhecia minhas dificuldades, mas não entendia suas causas. Sabia que era diferente das outras pessoas, porém não conseguia explicar exatamente por quê.
Sempre fui mais reservado, observador e solitário. Desde a infância, tinha dificuldade para olhar nos olhos das pessoas, compreender regras sociais não ditas e participar de conversas em grupo. Ambientes barulhentos me deixavam desconfortável, e eu precisava de momentos de silêncio para me sentir bem.
Também tinha dificuldade para perceber sentimentos, intenções e sinais emocionais. Muitas vezes não entendia quando alguém estava bravo comigo, quando uma pessoa queria amizade ou quando demonstrava interesse afetivo. Eu interpretava tudo de forma muito literal.
Eu e Márcia frequentávamos o mesmo ambiente religioso. Ela era cantora e eu tocava guitarra. Apesar de estarmos nos mesmos lugares, nossas vidas seguiam caminhos diferentes.
Participávamos dos mesmos ensaios e atividades. Eu era quieto e observador. Márcia era comunicativa, acolhedora e gostava de conversar com as pessoas.
Ela me pedia ajuda com trabalhos escolares, desenhos e também para tocar alguns dos hinos que cantava. Aos poucos, desenvolvemos uma amizade sincera, mas a distância.
No início, não havia planos de namoro. Dificuldades familiares foi um dos motivos que começamos a conversar de forma remota. Com o tempo, construímos uma relação baseada na confiança, no respeito e no cuidado mútuo.
Olhando para trás, percebo que grande parte das dificuldades de relacionamento estava em mim, não nela.
Márcia demonstrava carinho, amizade e proximidade de maneiras que muitas vezes eu não conseguia compreender. Ela respeitava meu jeito reservado, meu silêncio e meu ritmo. Mesmo sem conhecer o autismo, demonstrava uma paciência que hoje considero admirável.
Eu demorava para entender situações sociais que pareciam simples para outras pessoas.
Hoje entendo que muitas características associadas à Síndrome de Asperger influenciaram minha forma de me relacionar. Eu precisava de mais tempo para compreender sentimentos, mudanças e aproximações afetivas.
Também sempre precisei de espaço pessoal. Até hoje, situações simples, como permanecer muito tempo em contato físico ou lidar com excesso de estímulos, podem me causar desconforto. Essas características nunca significaram falta de amor, apenas uma maneira diferente de perceber o mundo.
Mesmo sem saber disso, Márcia respeitou meu tempo.
Ela não tentou me transformar em alguém que eu não era.
Ela não exigiu que eu reagisse como as outras pessoas.
Ela teve paciência para compreender um homem que nem sequer compreendia a si mesmo.
Com o passar dos anos, nossa amizade se fortaleceu. A convivência diária, a confiança e o respeito foram criando um vínculo cada vez mais profundo.
Quando percebi que queria construir uma vida ao lado dela, tomei uma decisão que surpreendeu muita gente.
Resolvi conversar com o pai dela.
Márcia imaginava que eu pediria autorização para namorar.
Mas, para surpresa dela, pedi sua mão em casamento.
Foi um pedido sincero, vindo de alguém que talvez não soubesse expressar sentimentos da maneira mais convencional, mas que tinha certeza do que desejava para o futuro.
Nem tudo foi fácil.
Pouco antes do casamento, fui demitido. Poderíamos ter desistido ou adiado nossos planos. Porém, acreditávamos que Deus estava conduzindo nossa caminhada.
Casamos e enfrentamos juntos os desafios do início da vida a dois. Vieram os empregos temporários, os testes seletivos, as incertezas e as dificuldades financeiras. Em alguns momentos foi necessário trabalhar em mais de um emprego.
Com fé, perseverança e apoio mútuo, fomos construindo nossa vida.
Mais tarde veio a estabilidade profissional por meio do concurso público. Aos poucos, os sonhos que pareciam tão distantes começaram a se tornar realidade.
Hoje, olhando para trás, percebo que Deus respondeu minhas orações de uma forma que eu não imaginava.
Eu pedia um trabalho, uma casa e uma família.
Mas Deus também colocou ao meu lado uma pessoa que me aceitou antes mesmo que eu compreendesse quem eu era.
Márcia conviveu com minhas dificuldades sociais, com meus silêncios, com minhas inseguranças e com minhas limitações de compreensão emocional. Mesmo sem conhecer o diagnóstico que só viria anos depois, ela soube respeitar meu tempo.
Essa história me ensinou que o amor não nasce da perfeição.
Ele nasce da paciência.
Nasce da compreensão.
Nasce do respeito pelas diferenças.
Se eu pudesse deixar uma mensagem para outras pessoas autistas, seria esta: não desista dos seus sonhos por acreditar que é diferente. Algumas pessoas enxergarão apenas suas dificuldades. Outras enxergarão aquilo que existe de melhor em você.
Esta não é apenas a história de como conheci minha esposa.
É a história de como Deus colocou em minha vida uma mulher que me ofereceu amizade, compreensão e amor quando eu ainda estava tentando compreender a mim mesmo.
E talvez essa tenha sido uma das maiores demonstrações de amor que alguém poderia receber.

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