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História do autor

Antes de saber o nome, eu já vivia o autismo

Nasci em Assis – SP, em 12 de setembro de 1976, filho de Francisco Pereira de Oliveira e Wilma Anedino de Oliveira. Cresci ao lado dos meus quatro irmãos: duas irmãs e dois irmãos.

Desde pequeno, meu jeito de estar no mundo era diferente.

Eu era uma criança muito reservada. Enquanto muitas crianças buscavam constantemente outras crianças, eu encontrava mais conforto na observação, nos objetos, nos sons e nos meus próprios pensamentos.

Na época, isso era visto apenas como timidez.

Mas, olhando para trás, percebo sinais que fizeram parte da minha história desde cedo.

Uma infância de sensações diferentes

Eu era considerado uma criança distraída e desastrada. Quando sofria alguma pressão ou estava em situações de muita cobrança, minha concentração diminuía e eu acabava me machucando.

Também tive crises de asma e bronquite, que fizeram parte da minha infância.

Uma das situações que mais marcou minha história aconteceu quando quebrei o braço.

Eu não compreendia exatamente o que havia acontecido. Sentia dor, então simplesmente parei de usar aquele braço.

Dias depois, quando tentaram tocar nele, minha reação mostrou que algo estava errado. Meu pai me levou ao médico e a radiografia confirmou: estava quebrado e já começava a cicatrizar de forma incorreta.

Foi necessário corrigir o osso.

Naquele momento, ninguém imaginava que aquela relação diferente com a dor poderia fazer parte de uma característica do espectro autista.

Dor, perigo e percepção do mundo

Minha relação com a dor sempre foi diferente.

Quando criança, muitas vezes eu não percebia imediatamente a gravidade dos machucados.

Em outra situação, tive um corte profundo na perna enquanto brincava na rua. Voltei para casa, deitei e pensei que dormir resolveria.

Meus pais perceberam que havia algo errado quando viram o ferimento.

Fui levado ao hospital e precisei levar pontos.

Para mim, naquele momento, a lógica era simples:

“Eu precisava descansar para melhorar.”

Hoje compreendo que algumas pessoas autistas podem apresentar diferenças na percepção sensorial, incluindo a forma como sentem dor, sons e estímulos do ambiente.

Sons, silêncio e música

Desde criança, sons altos sempre foram difíceis para mim.

Barulhos intensos causavam desconforto e muitas vezes eu procurava lugares mais silenciosos.

A música apareceu como uma ponte.

O que antes era apenas silêncio e isolamento começou a ganhar novas formas de expressão.

Aprendi instrumentos musicais e encontrei no saxofone uma maneira de comunicar sentimentos que muitas vezes eu não conseguia colocar em palavras.

Pensamento literal: quando as palavras têm outro significado

Outra característica que fez parte da minha infância foi interpretar algumas frases literalmente.

Certa vez, ouvi alguém dizer:

“Hoje vai chover canivete.”

Eu fiquei preocupado.

Eu sabia o que era chuva, mas não sabia o significado daquela expressão. Minha pergunta era simples:

“Se vai chover, por que ninguém trouxe guarda-chuva?”

Com o tempo, percebi que muitas expressões carregavam sentidos que não estavam escritos nas palavras.

Aprender isso foi parte da minha caminhada.

Construindo caminhos

A vida social, os estudos, o trabalho e os relacionamentos sempre foram desafios importantes para mim.

Houve momentos em que disseram que eu não conseguiria algumas coisas.

Mas continuei tentando.

Construí minha vida acadêmica, formei-me em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), ingressei no serviço público e conquistei meu espaço profissional como Técnico de Gestão Pública na Prefeitura de Londrina.

Também continuei estudando, realizando especializações em Gestão Hospitalar e Serviços de Saúde, Direito Administrativo, Sociologia e Administração Pública e Gestão Estratégica.

A música, a fé e o apoio

Minha trajetória também foi construída com apoio da minha família, da minha esposa Márcia, dos amigos da música e da comunidade onde participo.

A fé sempre esteve presente como fonte de força e significado.

O autismo não apagou meus sonhos.

Ele faz parte da minha história.

Hoje compreendo que muitas coisas que vivi tinham uma explicação: uma forma diferente de perceber, sentir e interpretar o mundo.

Esta é a minha experiência.

Meu lado Asperger.

Minha forma de existir.

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