Supermercado, ruído e ansiedade: quando o mundo exagera nos estímulos

Ir ao supermercado deveria ser simples. Mas, para quem está no espectro autista, como eu, essa tarefa pode se transformar em um gatilho de sobrecarga sensorial e emocional.


Outro dia, precisei ir ao mercado comprar algumas coisas rápidas. Entrei tranquilo. Mas, em poucos segundos, os sons e os estímulos começaram a se multiplicar: música alta, caixas falando ao mesmo tempo, crianças chorando, freezers estalando, luzes piscando, cheiros fortes, empilhadeiras apitando...


Tudo isso junto. Tudo isso ao mesmo tempo.


Para quem é autista, especialmente com perfil Asperger como o meu, o que para muitos passa despercebido, para nós pode parecer uma avalanche sensorial. E ali eu estava: tentando manter a “normalidade”, segurando a ansiedade, fingindo que estava tudo bem, mas por dentro, em colapso.


Peguei o que precisava e fui embora o mais rápido que pude. Na saída, o que veio foi o alívio... 


O que essa experiência me ensinou?


Que meus limites precisam ser respeitados, primeiro por mim.


Que posso me preparar melhor antes de sair: usar fones com cancelamento de ruído, escolher horários mais calmos, fazer lista escrita. Que está tudo bem pedir ajuda.


Nem todo autista se desorganiza do mesmo jeito, mas muitos de nós sentimos essa confusão sensorial em ambientes barulhentos e imprevisíveis. E o supermercado é um desses lugares.


Falar sobre isso é também uma forma de autocuidado. É dar nome ao que sentimos e permitir que outras pessoas no espectro se reconheçam. Porque a gente não está sozinho, e não precisa mais fingir que está tudo bem quando não está.


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Por Vilmar Francisco de Oliveira

Autista com diagnóstico de Asperger, músico, servidor público e autor do blog Meu Lado Asperger.




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