Elas se despedem, seguem o caminho de casa e, pouco tempo depois, já estão pensando em outras coisas.
Comigo, às vezes, acontece diferente.
A conversa termina do lado de fora.
Mas continua acontecendo dentro da minha cabeça.
Recentemente, levei meu saxofone ao técnico para corrigir alguns problemas de regulagem. Havia um desalinhamento na mesa das chaves e algumas folgas na mecânica, que provocavam pequenos vazamentos de ar e comprometiam a resposta do instrumento.
Enquanto ele examinava cuidadosamente o saxofone e fazia os ajustes necessários, começamos a conversar. Falamos sobre música, instrumentos, experiências e diversos outros assuntos que surgiram naturalmente.
Foi uma conversa agradável.
Nada de extraordinário aconteceu.
Não houve discussão, constrangimento ou qualquer situação desagradável.
Voltei para casa satisfeito por saber que o instrumento voltaria a responder como deveria.
Mas, curiosamente, o que continuou comigo não foi o conserto do saxofone.
Foi a conversa.
Nos dias seguintes, percebi que uma parte de mim ainda permanecia naquela oficina.
Sem perceber, eu revivia trechos do diálogo.
Lembrava de uma pergunta.
Depois, de uma resposta.
Então imaginava outra forma de responder.
Voltava a uma frase dita pelo técnico.
Tentava entender exatamente o que ele quis dizer.
Pensava se minhas respostas haviam sido adequadas.
E, quando percebia, estava reconstruindo mentalmente toda aquela conversa mais uma vez.
Talvez alguém imagine que isso seja apenas preocupação ou ansiedade.
No meu caso, não é tão simples.
Também não é exatamente arrependimento.
É como se meu cérebro se recusasse a arquivar aquela experiência antes de analisá-la por completo.
Enquanto muitas pessoas encerram uma conversa quando ela termina, minha mente parece continuar processando cada detalhe por muito mais tempo.
É como se existisse um diálogo silencioso acontecendo dentro de mim.
E esse diálogo consome energia.
Uma conversa de vinte minutos pode ocupar meus pensamentos durante horas ou até dias.
E isso acontece mesmo quando a experiência foi positiva.
Durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma característica da minha personalidade.
Depois do diagnóstico de autismo, comecei a perceber que muitos adultos autistas descrevem experiências semelhantes.
Nem sempre pensamos na mesma intensidade, nem pelos mesmos motivos. Ainda assim, existe algo em comum: nosso cérebro costuma continuar trabalhando muito depois que a interação social termina.
Talvez isso explique por que, às vezes, precisamos de silêncio depois de conversar com alguém.
Ou por que chegamos em casa aparentemente cansados, mesmo depois de um encontro agradável.
Não é falta de interesse pelas pessoas.
Também não é antipatia.
É apenas o tempo que nosso cérebro precisa para concluir um processamento que, para muitos, já terminou.
Como sociólogo, essa experiência também me faz refletir sobre a própria comunicação.
Costumamos acreditar que a comunicação termina quando as palavras acabam.
Mas talvez isso não seja verdade para todos.
Para algumas pessoas autistas, o diálogo externo termina.
O diálogo interno continua.
E essa diferença muda completamente a forma como vivenciamos os relacionamentos, o trabalho, as amizades e até os encontros mais simples do cotidiano.
Talvez você conheça alguém que, depois de uma reunião, de uma visita ou de uma conversa qualquer, fique mais quieto pelo restante do dia.
Talvez essa pessoa não esteja triste.
Talvez não esteja chateada.
Talvez seu cérebro apenas ainda esteja terminando uma conversa que, para os outros, acabou há muito tempo.
Se você também vive essa experiência, saiba que não está sozinho.
Durante muito tempo, pensei que isso acontecesse apenas comigo.
Hoje percebo que, para muitos autistas adultos, algumas conversas nunca terminam exatamente quando parecem terminar.
Elas apenas mudam de lugar.
Saem do mundo ao nosso redor e continuam, silenciosamente, dentro da nossa mente.
Talvez esse seja um dos aspectos menos visíveis do autismo.
Porque, enquanto o mundo acredita que tudo terminou quando nos despedimos, nossa mente ainda está tentando compreender, organizar e dar sentido a cada palavra.
E isso também faz parte da forma como existimos e nos relacionamos com o mundo.

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