Eu sinto.
Penso.
Reflito.
Analiso.
Mas, para mim, sentir uma emoção, reconhecer essa emoção e conseguir comunicá-la não são necessariamente a mesma coisa.
Às vezes, preciso primeiro entender racionalmente o que aconteceu.
Depois, aos poucos, começo a perceber o que aquilo provocou dentro de mim.
Em algumas situações, preciso até da ajuda de outra pessoa para entender qual emoção estou sentindo.
Hoje, depois de descobrir que sou autista, consigo olhar para algumas experiências da minha vida de uma maneira diferente.
Não para transformar tudo o que vivi em consequência do autismo.
Mas para compreender melhor algumas dificuldades que sempre fizeram parte da minha maneira de estar no mundo.
Uma dessas formas de compreender minha experiência é imaginar que sou um astronauta.
O astronauta e o traje
Imagine um astronauta caminhando pelo espaço.
Dentro daquele traje existe uma pessoa.
Ela sente medo, alegria, tristeza, saudade, ansiedade, carinho, frustração e todas as outras emoções humanas.
Mas quem está do lado de fora não consegue perceber diretamente tudo o que acontece dentro daquele traje.
Existe uma camada entre o astronauta e o espaço.
Na minha metáfora, eu sou o astronauta.
As emoções estão dentro de mim.
O traje representa as estratégias que desenvolvi ao longo da vida para conseguir lidar com o ambiente, com as relações sociais, com os estímulos e com as situações que nem sempre consigo compreender imediatamente.
E o espaço representa o mundo ao meu redor.
As pessoas.
As relações sociais.
Os sons.
Os estímulos.
As expectativas.
As regras que muitas vezes não são ditas, mas que as pessoas parecem saber.
O traje me ajuda a permanecer nesse espaço.
Mas ele também pode criar uma distância entre aquilo que acontece dentro de mim e aquilo que as outras pessoas conseguem perceber.
E existe algo ainda mais importante.
Às vezes, essa distância não existe apenas entre mim e as outras pessoas.
Às vezes, ela também existe entre mim e as minhas próprias emoções.
Eu sei que alguma coisa está acontecendo.
Mas nem sempre consigo identificar imediatamente o que é.
Aprendi a observar antes de agir
Durante grande parte da minha vida, eu não sabia que era autista.
Por isso, também não sabia que algumas das estratégias que utilizava para me adaptar ao ambiente poderiam estar relacionadas ao autismo.
Eu simplesmente fazia o que parecia funcionar.
Eu observava.
Prestava atenção.
Tentava entender como as pessoas se comportavam.
Como conversavam.
Como reagiam.
O que era considerado adequado.
O que parecia estranho.
Depois, tentava reproduzir aquele comportamento.
Era como se eu precisasse primeiro estudar o ambiente para depois entrar em cena.
Eu observava os movimentos das pessoas e calculava os meus.
Não era exatamente uma decisão consciente de fingir ser outra pessoa.
Era uma forma que encontrei para funcionar.
Com o tempo, fui construindo uma espécie de máscara social.
Ela me ajudava a parecer adequado para aquele ambiente.
Na escola, no trabalho, na igreja e em outros espaços sociais, eu aprendia os códigos daquele lugar e tentava agir de acordo com eles.
Hoje consigo perceber que isso exigia bastante energia.
Porque, enquanto muitas pessoas simplesmente participavam de uma situação social, eu muitas vezes precisava observar, analisar e decidir como deveria agir.
Era como estar dentro de um traje tentando controlar todos os seus movimentos.
Quando a razão chega antes da emoção
Essa maneira de observar e analisar também aparece na forma como lido com minhas emoções.
Existe uma diferença entre compreender racionalmente uma situação e compreender emocionalmente o que ela provocou em mim.
Quando alguma coisa acontece, muitas vezes começo pela análise.
O que aconteceu?
Quem fez o quê?
O que foi dito?
Qual foi a sequência dos acontecimentos?
O que pode ter causado aquela situação?
Eu consigo pensar sobre essas coisas.
Consigo organizar os acontecimentos.
Consigo tentar encontrar uma explicação lógica.
Mas isso não significa que eu saiba imediatamente o que estou sentindo.
Às vezes, preciso primeiro compreender a situação para depois começar a perceber a emoção.
É como se a razão acendesse uma luz dentro do traje.
Primeiro consigo enxergar os acontecimentos.
Depois, aos poucos, começo a enxergar o que eles provocaram em mim.
Às vezes, até penso que existe um pouco do Dr. Spock, de Star Trek, em mim.
Não porque eu seja frio ou tenha poucas emoções.
Muito pelo contrário.
Eu sinto.
Mas muitas vezes a razão chega primeiro.
A emoção vem depois.
E, às vezes, vem devagar.
Spock representa para mim essa tentativa de compreender racionalmente aquilo que acontece antes de conseguir expressar completamente aquilo que existe por dentro.
Não penso nisso como uma ausência de sentimentos.
Penso como uma maneira diferente de chegar até eles.
Sentir, reconhecer e demonstrar
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de explicar.
Eu não estou dizendo que não sinto.
Estou dizendo que, às vezes, preciso de tempo para reconhecer aquilo que sinto.
A emoção pode estar acontecendo antes de eu conseguir identificá-la.
Posso estar diante de uma situação importante e, naquele momento, simplesmente não saber o que ela está provocando em mim.
Depois de algum tempo, posso começar a perceber.
Às vezes, horas depois.
Às vezes, ainda mais tarde.
Por isso, existe uma diferença entre:
sentir, reconhecer e demonstrar.
Essas três coisas podem acontecer em momentos diferentes.
No meu caso, algumas vezes a razão vem primeiro.
Eu compreendo a situação.
Analiso.
Organizo.
E, aos poucos, começo a reconhecer o sentimento.
Só depois consigo encontrar uma maneira de comunicá-lo.
Por isso, quando alguém pergunta:
“O que você está sentindo?”
eu posso conseguir explicar perfeitamente o que aconteceu e, ao mesmo tempo, não conseguir responder qual emoção aquilo provocou em mim.
Posso saber que alguma coisa me incomodou sem saber exatamente por quê.
Posso perceber que estou diferente sem conseguir dizer qual sentimento está por trás disso.
E algumas vezes preciso de ajuda.
Uma pergunta diferente.
Uma conversa.
Uma imagem.
Um desenho.
Uma explicação.
Alguma outra forma de comunicação.
Não para alguém sentir por mim.
Mas para me ajudar a encontrar o caminho até aquilo que já está acontecendo dentro de mim.
Quando encontrei outras formas de conversar
Nem sempre encontrei a comunicação pela conversa.
Algumas vezes, encontrei por outros caminhos.
Um deles foi o desenho.
Quando era criança, uma professora passou uma tarefa de casa e pediu que fizéssemos um desenho.
Eu tive dificuldade.
Meu pai percebeu e acabou fazendo o desenho para mim.
Acho que era um elefante, mas não me lembro com precisão.
O que lembro é que fiquei ao lado dele observando enquanto desenhava.
Observei os passos.
A maneira como ele fazia cada parte.
A sequência.
Quando entreguei a tarefa, minha professora gostou muito e me elogiou.
Depois pediu:
“Desenhe de novo para nós agora.”
Eu me lembrei dos passos que meu pai havia feito e reproduzi o desenho.
A partir daquele momento, comecei a desenhar.
Meus desenhos não eram sofisticados.
Eram simples.
Muitas vezes eu colocava o desenho original embaixo da folha em branco e reproduzia o desenho.
Mas aquilo funcionava para mim.
Com o tempo, comecei também a desenhar para os meus colegas.
E percebi que o desenho podia me aproximar das pessoas.
Eu desenhava para alguém.
A pessoa gostava.
Conversávamos sobre o desenho.
E, pouco a pouco, aquilo criava uma interação.
Na escola, Educação Artística acabou se tornando a disciplina em que eu costumava tirar as melhores notas.
Hoje, olhando para aquela experiência, percebo que o desenho foi mais do que uma atividade escolar.
Foi uma das primeiras linguagens sociais que encontrei.
Eu talvez não soubesse como iniciar uma interação simplesmente chegando e conversando.
Mas sabia desenhar.
E o desenho criava uma ponte.
Depois veio a música
A música entrou na minha vida de outra maneira.
Meu pai era pastor.
Na igreja, eu tinha muita dificuldade para interagir socialmente e muitas vezes ficava isolado em um canto.
Meu pai percebeu isso e teve a ideia de contratar alguém para me ensinar violão.
Aprendi o básico.
Depois comecei a tocar com outros músicos na igreja.
Eu tocava muito de ouvido e fui desenvolvendo aos poucos.
Conforme fui ficando mais confiante, as pessoas começaram a me pedir para tocar enquanto elas cantavam.
A música criou outra forma de participação.
Eu não precisava necessariamente começar uma conversa.
Eu podia tocar.
Alguém cantava.
Outra pessoa tocava.
E, naquele momento, eu fazia parte do grupo.
A música acabou se tornando outra ferramenta de socialização para mim.
O desenho havia criado uma ponte na escola.
A música criou uma ponte na igreja.
Mais tarde, a escrita também se tornaria uma ponte.
Hoje consigo perceber que encontrei diferentes maneiras de conversar com o mundo.
Nem sempre pela fala.
Às vezes, pelo desenho.
Às vezes, pela música.
Às vezes, pela escrita.
O rádio dentro do traje
Talvez seja por isso que penso que o traje do astronauta também precisa ter um rádio.
O rádio representa as formas que encontramos para nos comunicar.
No meu caso, a escrita e o desenho podem ajudar muito.
Quando escrevo, tenho tempo.
Posso pensar.
Posso voltar ao que escrevi.
Posso mudar uma palavra.
Posso organizar uma ideia.
Posso encontrar uma maneira de dizer algo que, em uma conversa espontânea, talvez eu não conseguisse expressar.
O desenho pode fazer algo parecido.
Uma pessoa pode não conseguir responder diretamente:
“O que você está sentindo?”
Mas talvez consiga desenhar.
Talvez consiga escolher uma imagem.
Talvez consiga escrever.
Talvez consiga contar uma história.
Talvez consiga explicar primeiro o que aconteceu e só depois falar sobre o que sentiu.
Essas formas de comunicação podem funcionar como pequenas janelas no traje.
A emoção continua sendo da pessoa.
Mas agora existe um caminho para que ela possa ser percebida e compreendida.
Quando alguém encontrou o meu rádio
Quando eu estava estudando Ciências Sociais, comecei a fazer terapia.
Naquela época, a psicóloga dizia que eu estava criando um bloqueio por causa dos meus próprios estudos.
Ela tinha dificuldade para chegar até mim.
Eu conseguia responder às perguntas.
Conseguia explicar situações.
Conseguia analisar as coisas de maneira racional.
Mas ela não conseguia chegar aos meus sentimentos.
Com o tempo, ela desistiu da minha terapia.
Anos depois, já formado, concursado e depois de descobrir que era autista, comecei a fazer terapia com outra psicóloga.
A experiência foi diferente.
Ela encontrou outra maneira de se comunicar comigo.
Em determinado momento, ela pediu:
“Desenhe.”
Eu desenhava.
Depois ela perguntava:
“Agora me explique o que você desenhou.”
E aquilo funcionava.
O desenho se transformava em uma ponte.
Por meio dele, eu conseguia mostrar e explicar coisas que talvez não conseguisse expressar diretamente.
Hoje, olhando para aquela experiência através da metáfora do astronauta, penso que ela encontrou uma espécie de rádio para se comunicar comigo.
Ela não tentou arrancar meu traje.
Ela encontrou uma maneira de conversar com o astronauta que estava dentro dele.
Essa experiência me ensinou algo que considero importante:
quando uma forma de comunicação não funciona, talvez seja necessário procurar outra.
Não significa necessariamente que a pessoa não queira falar.
Talvez ela não consiga falar daquela maneira.
Nem sempre consigo entender o que os outros estão sentindo
Essa dificuldade também pode aparecer na relação com outras pessoas.
Eu consigo observar comportamentos.
Consigo ouvir o que alguém está dizendo.
Consigo analisar uma situação.
Mas isso não significa que eu consiga saber automaticamente o que aquela pessoa está sentindo.
Se alguém me disser:
“Estou bem.”
eu posso simplesmente acreditar.
Mesmo que essa pessoa esteja triste.
Mesmo que esteja preocupada.
Mesmo que esteja escondendo alguma coisa.
Não significa que eu não me importe.
Significa que nem sempre consigo perceber aquilo que não foi dito claramente.
Para algumas pessoas, certos sinais podem parecer óbvios.
Para mim, nem sempre são.
Por isso, uma comunicação mais direta pode ser muito importante.
O traje também é proteção
Aqui está uma das partes mais importantes da metáfora.
Alguém poderia perguntar:
“Se o traje é uma barreira, por que simplesmente não tirá-lo?”
A resposta está no próprio espaço.
Um astronauta não pode simplesmente tirar o traje porque está incomodado com ele.
Se fizer isso, não encontrará liberdade.
Encontrará falta de oxigênio.
E é aqui que minha metáfora muda de significado.
O traje não é apenas uma barreira.
Ele também é proteção.
Na minha experiência como pessoa autista, alguns sons, ambientes, excesso de estímulos e determinadas situações podem ser muito intensos.
Aquilo que para outra pessoa pode ser apenas um ambiente comum, para mim pode exigir muito mais processamento.
Por isso, algumas estratégias que podem parecer uma barreira para quem está do lado de fora também podem funcionar como formas de proteção e regulação.
Às vezes, ficar em silêncio é uma maneira de me reorganizar.
Às vezes, afastar-me de um ambiente é uma forma de recuperar energia.
Às vezes, observar antes de agir é a maneira que encontrei para entender o que está acontecendo.
Às vezes, seguir uma rotina conhecida me ajuda a funcionar melhor.
E às vezes, usar a minha máscara social é simplesmente a maneira que aprendi para atravessar determinado ambiente.
A máscara também faz parte do traje
Hoje consigo perceber que a máscara social foi uma das partes mais importantes do meu traje.
Durante muitos anos, eu não sabia que estava usando uma máscara.
Eu apenas achava que precisava aprender a me comportar como as outras pessoas.
Eu observava.
Calculava.
Testava.
Aprendia.
Reproduzia.
Quando dava certo, eu repetia.
Isso me ajudou a passar por muitos ambientes.
Mas também tinha um custo.
Manter uma aparência adequada ao ambiente exige atenção.
É preciso observar o que está acontecendo.
Pensar no que fazer.
Controlar determinadas reações.
Escolher palavras.
Tentar entender o que as pessoas esperam.
E, muitas vezes, fazer tudo isso enquanto outras coisas continuam acontecendo dentro de mim.
Hoje compreendo que não preciso olhar para essa máscara apenas como algo negativo.
Ela foi uma ferramenta que construí para conseguir viver em sociedade.
Mas também não quero fingir que ela não existe ou que não pode ser cansativa.
O objetivo não precisa ser destruir a máscara.
Talvez seja aprender quando realmente preciso usá-la.
E, principalmente, diante de quem posso deixá-la de lado.
O traje me protege do espaço
Talvez essa seja uma das coisas que as pessoas que não vivem essa experiência tenham mais dificuldade para compreender.
Às vezes, aquilo que parece isolamento pode ser uma necessidade de recuperação.
Aquilo que parece frieza pode ser contenção.
Aquilo que parece distância pode ser uma forma de organização interna.
Aquilo que parece falta de interesse pode estar relacionado à sobrecarga.
E aquilo que parece uma barreira pode estar ajudando a pessoa a continuar naquele ambiente.
Eu não uso o traje apenas para me esconder do mundo.
Eu também preciso dele para conseguir permanecer no mundo.
Por isso, quando alguém pergunta:
“Por que você não simplesmente deixa de fazer isso?”
talvez a pergunta mais adequada seja:
“O que esse comportamento está protegendo?”
Nem todo comportamento que parece estranho para quem está do lado de fora é inútil.
Às vezes, existe uma razão.
Às vezes, existe uma necessidade.
Às vezes, existe uma tentativa de continuar funcionando em um ambiente que exige mais do que aquela pessoa consegue processar naquele momento.
Não quero necessariamente tirar o traje
Essa percepção mudou minha maneira de pensar sobre inclusão.
Durante muito tempo, parece que a sociedade trabalhou com a ideia de que a pessoa diferente precisa aprender a funcionar como a maioria.
Como se o objetivo fosse ensinar o astronauta a viver sem o traje.
Mas talvez essa não seja a melhor pergunta.
Talvez a pergunta seja:
“Como podemos tornar o ambiente mais habitável para esse astronauta?”
Isso muda tudo.
Em vez de exigir que eu retire minha proteção, podemos procurar maneiras de melhorar a comunicação.
Em vez de interpretar meu silêncio como falta de sentimento, podemos compreender que talvez exista muita coisa acontecendo internamente.
Em vez de exigir uma demonstração emocional específica, podemos aceitar que existem diferentes formas de expressar sentimentos.
Em vez de perguntar por que uma pessoa autista não consegue simplesmente se adaptar, talvez seja importante perguntar:
“O que o ambiente está exigindo dessa pessoa?”
Inclusão também pode significar diminuir a necessidade de usar o traje o tempo todo.
Não porque o traje seja errado.
Mas porque um ambiente mais acessível pode permitir que o astronauta tenha mais liberdade.
Abrir o visor
Isso não significa que quero permanecer fechado para sempre.
Eu também quero proximidade.
Quero conversar.
Quero compartilhar sentimentos.
Quero ser compreendido.
Quero estabelecer vínculos.
Mas talvez eu precise fazer isso de uma maneira diferente.
Talvez eu precise de confiança.
De tempo.
De explicações.
De alguém que saiba fazer perguntas de uma maneira que eu consiga compreender.
Talvez eu precise escrever.
Talvez precise desenhar.
Talvez precise tocar.
Talvez precise de silêncio antes de conseguir falar.
Talvez precise simplesmente saber que não serei julgado pela maneira como minha emoção aparece.
É assim que imagino o astronauta abrindo o visor.
Não porque o traje deixou de ser necessário.
Mas porque, naquele momento, ele encontrou um ambiente seguro o suficiente para abrir o visor.
E abrir o visor não precisa acontecer de uma única vez.
Pode ser uma pequena abertura.
Uma conversa.
Uma frase.
Um desenho.
Uma música.
Um texto.
Um olhar.
Uma demonstração de carinho.
Cada pessoa encontra sua própria maneira.
O autismo não significa ausência de sentimentos
É importante deixar claro que esta é uma metáfora baseada na minha experiência.
Cada pessoa autista é diferente.
O autismo não pode ser reduzido a uma única maneira de sentir, pensar ou se comunicar.
Nem todas as pessoas autistas terão as mesmas dificuldades que descrevo aqui.
Algumas podem identificar facilmente suas emoções.
Outras podem ter dificuldades maiores.
Algumas podem demonstrar sentimentos de maneira muito intensa.
Outras podem ser mais contidas.
O que estou compartilhando é a minha experiência.
E, dentro dela, existe algo que considero importante dizer:
Uma expressão emocional contida não significa necessariamente ausência de emoção.
Uma pessoa pode sentir profundamente, mas precisar de tempo para compreender aquilo que está sentindo.
Pode precisar racionalizar uma situação antes de perceber a emoção.
Pode precisar de ajuda para encontrar palavras.
Pode amar sem conseguir demonstrar da maneira que outra pessoa espera.
Pode sofrer sem parecer estar sofrendo.
Pode precisar se afastar para conseguir se reorganizar.
Pode precisar de outras formas de comunicação para mostrar aquilo que sente.
Por isso, talvez seja necessário olhar além do comportamento aparente.
Porque existe uma pessoa dentro daquele traje.
O astronauta continua sendo humano
Gosto dessa metáfora porque ela não transforma o autismo em uma prisão.
O astronauta não deixou de ser humano porque está usando um traje.
Ele continua sentindo.
Continua pensando.
Continua desejando.
Continua criando vínculos.
Continua tendo medo.
Continua amando.
Continua aprendendo.
Continua criando.
A diferença é que existe uma camada entre ele e o ambiente.
E essa camada pode ser, ao mesmo tempo, barreira, proteção e ferramenta.
Talvez essa seja uma das coisas que aprendi ao compreender melhor meu próprio autismo:
Não preciso necessariamente tirar o traje para provar que sou capaz de viver no mundo.
Preciso aprender a compreender meu traje.
Preciso reconhecer quando ele está me protegendo.
Preciso reconhecer quando ele está dificultando minha comunicação.
Preciso perceber quando não estou conseguindo identificar sozinho aquilo que estou sentindo.
Preciso encontrar pessoas que consigam conversar comigo através dele.
Preciso também reconhecer as ferramentas que existem dentro dele.
O desenho.
A música.
A escrita.
A observação.
A minha capacidade de analisar e organizar as coisas.
Todas elas, de alguma maneira, me ajudaram a encontrar caminhos.
E, principalmente, preciso ter a liberdade de abrir o visor quando me sentir seguro.
Porque talvez inclusão não seja obrigar o astronauta a respirar no espaço sem proteção.
Talvez inclusão seja criar condições para que ele possa dizer:
“Aqui eu consigo abrir o visor.”
E, quando o visor finalmente se abre, talvez as pessoas descubram algo que sempre esteve ali.
Não existe ausência de sentimentos.
Não existe vazio.
Não existe frieza.
Existe apenas um ser humano que passou muito tempo tentando compreender o próprio traje.
Um ser humano que aprendeu a observar o mundo, analisar as situações e encontrar caminhos para funcionar dentro dele.
Um ser humano que encontrou no desenho uma forma de se aproximar das pessoas.
Que encontrou na música uma maneira de participar.
Que encontrou na escrita uma maneira de expressar aquilo que nem sempre conseguia dizer.
Um ser humano que, às vezes, precisa de tempo para descobrir o que está sentindo.
Que, em algumas situações, precisa de ajuda para encontrar o nome de uma emoção.
E que, quando encontra um ambiente seguro e uma forma de comunicação que funciona para ele, consegue mostrar ao mundo aquilo que sempre esteve lá dentro.
O traje não define quem está dentro dele.
Ele apenas ajuda o astronauta a continuar respirando enquanto atravessa o seu próprio espaço.
Talvez seja esse o ponto que eu gostaria de deixar para quem lê este texto.
Quando um autista não consegue chegar até a própria emoção pela mesma porta que você costuma usar, talvez não seja hora de desistir.
Talvez seja hora de procurar outra porta.
Talvez seja necessário mudar a pergunta.
Mudar a linguagem.
Usar um desenho.
Uma imagem.
Uma música.
Uma escrita.
Uma conversa.
Ou simplesmente dar mais tempo.
Porque, às vezes, a emoção está lá.
O que falta não é sentimento.
Falta encontrar o caminho até ele.

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