Quando eu descobri que as pessoas nem sempre falam o que querem dizer
Uma das coisas mais difíceis para mim durante a infância era entender quando as pessoas falavam uma coisa, mas queriam dizer outra.
Para muitas pessoas isso parece natural. Elas compreendem expressões populares, metáforas, ironias e brincadeiras sem precisar pensar muito. Para mim não era assim.
Lembro-me de um episódio que aconteceu quando eu estudava no Ensino Fundamental I. Certo dia ouvi alguém dizer:
— Está chovendo canivete lá fora.
Fiquei assustado.
Eu sabia o que era um canivete. Sabia que era um objeto cortante e perigoso. Na minha imaginação infantil, comecei a pensar em como seria possível que canivetes estivessem caindo do céu. Será que alguém poderia se machucar? Será que era seguro sair de casa?
Somente depois percebi que aquela frase não deveria ser entendida literalmente. Era apenas uma forma popular de dizer que estava chovendo muito forte.
Naquela época eu não sabia que era autista. Eu apenas percebia que muitas vezes parecia entender o mundo de forma diferente das outras pessoas.
O mais curioso é que isso não aconteceu apenas na infância.
Já na adolescência, ouvi meu pai conversando com um amigo do sítio. Eles falavam repetidamente sobre "animais". Enquanto escutava a conversa, imaginei que estivessem discutindo a classificação dos seres vivos, como aprendíamos na escola: animais, aves, plantas e outros grupos da natureza.
Em determinado momento resolvi participar da conversa e comecei a falar sobre os reinos dos seres vivos.
Os dois ficaram olhando para mim sem entender o que eu estava querendo dizer.
Somente depois percebi que, naquela conversa, quando falavam de "animais", estavam se referindo especificamente aos cavalos da propriedade. Enquanto eles falavam de algo concreto e conhecido entre eles, eu havia interpretado a palavra em seu sentido mais amplo e acadêmico.
Anos depois, já trabalhando no serviço público, vivi outra situação parecida.
Um colega comentou que um colaborador que prestava serviços de pedreiro em sua casa havia "molhado a pólvora".
Fiquei imaginando o que tinha acontecido. Pensei que talvez realmente existisse pólvora envolvida na situação e que ela tivesse sido molhada por acidente.
Percebendo minha expressão de dúvida, meu colega explicou que aquilo era apenas uma expressão popular. "Molhar a pólvora" significava que o colaborador estava criando dificuldades ou demonstrando falta de disposição para cumprir adequadamente suas obrigações.
Mais uma vez eu havia interpretado as palavras exatamente como foram ditas.
Com o passar dos anos, descobri que muitas conversas funcionam dessa forma. As pessoas nem sempre dizem exatamente o que querem dizer. Muitas mensagens vêm escondidas em expressões populares, metáforas, gestos, olhares ou contextos que todos parecem compreender automaticamente.
Enquanto muitos entendem isso de forma natural, eu frequentemente preciso analisar, interpretar e reconstruir mentalmente o significado da mensagem.
Hoje entendo que essa característica está presente em muitos autistas. Não se trata de falta de inteligência. Pelo contrário. Muitas vezes conseguimos compreender assuntos complexos, estudar temas difíceis e desenvolver conhecimentos especializados. Porém, podemos encontrar dificuldades justamente naquilo que a maioria considera simples: compreender mensagens implícitas.
Mesmo atualmente, ainda prefiro quando as pessoas falam de forma clara e objetiva.
A comunicação direta me traz segurança. Não preciso adivinhar intenções escondidas nem procurar significados secretos nas palavras.
Talvez por isso eu tenha desenvolvido o hábito de pesquisar, estudar e buscar explicações para tudo. Quando não compreendo algo, procuro entender. Quando uma informação parece confusa, tento organizá-la.
O menino que um dia acreditou que canivetes poderiam cair do céu cresceu. Mas continua acreditando que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas se comunicassem com mais clareza.
Porque, para muitos autistas, compreender as palavras já é um desafio suficiente. Não deveria ser necessário adivinhar aquilo que não foi dito.
Essa característica também esteve presente durante minha graduação em Ciências Sociais.
Muitas pessoas imaginam que um autista teria dificuldades em todas as disciplinas teóricas, mas a minha experiência foi diferente. Eu conseguia compreender relativamente bem matérias como Antropologia, Ciência Política e Metodologia Científica. Os textos dessas áreas costumavam ser mais diretos. Mesmo quando os conceitos eram complexos, os autores geralmente explicavam de forma objetiva o que pretendiam dizer.
A Sociologia, porém, era um desafio diferente.
Muitas vezes eu lia um texto e tinha a sensação de que existia algo escondido nele. Os professores e colegas pareciam perceber significados que eu não conseguia enxergar imediatamente. Eu lia uma vez. Lia novamente. Lia uma terceira vez. Mesmo assim, algumas passagens continuavam parecendo um mistério.
Era como se eu compreendesse as palavras individualmente, mas tivesse dificuldade para captar aquilo que estava nas entrelinhas.
Enquanto outros alunos pareciam identificar rapidamente as interpretações, os contextos históricos, as críticas implícitas e os significados mais abstratos, eu precisava fazer um esforço muito maior para construir essa compreensão.
Com o tempo, desenvolvi estratégias próprias. Lia devagar, fazia anotações, pesquisava conceitos, comparava autores e voltava diversas vezes ao mesmo texto. Muitas vezes eu precisava estudar muito mais do que os outros colegas para chegar a uma compreensão semelhante.
Hoje percebo que essa experiência tem relação com minha forma de processar a linguagem. Eu me sinto mais confortável quando as informações são apresentadas de forma clara e explícita. Quando preciso interpretar intenções ocultas, mensagens implícitas ou significados que não estão diretamente escritos, o esforço mental aumenta consideravelmente.
Talvez por isso eu tenha me identificado tanto com a pesquisa e com o estudo. Quando encontro algo que não compreendo, minha tendência não é desistir. É investigar até que aquilo faça sentido.
Durante muitos anos pensei que essa dificuldade fosse apenas uma limitação pessoal. Hoje entendo que ela faz parte da maneira como meu cérebro autista processa o mundo.
Quando olho para trás, percebo que todos esses episódios têm algo em comum.
O menino que acreditou que poderia estar chovendo canivetes, o adolescente que pensou que uma conversa sobre "animais" era uma discussão sobre os reinos dos seres vivos, o universitário que precisava ler várias vezes os textos de Sociologia e o servidor público que imaginou que alguém realmente havia molhado pólvora são, na verdade, a mesma pessoa tentando compreender um mundo que nem sempre diz exatamente aquilo que parece dizer.
Durante muito tempo, pensei que esses acontecimentos fossem apenas distrações, falta de atenção ou dificuldades pessoais que eu precisava superar. Somente após descobrir meu diagnóstico de autismo comecei a enxergar um padrão que me acompanhava desde a infância.
Sempre tive facilidade para compreender informações diretas, objetivas e organizadas. Quando alguém explica claramente o que deseja, consigo aprender, pesquisar, analisar e encontrar soluções. Porém, quando as mensagens dependem de metáforas, expressões populares, duplos sentidos ou significados implícitos, o processo se torna muito mais complexo.
Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma relação tão forte com os estudos e com a pesquisa. Pesquisar tornou-se uma forma de traduzir o mundo. Quando não compreendo algo, procuro informações. Quando uma situação parece confusa, tento organizá-la mentalmente. Quando encontro uma dificuldade, busco conhecimento para construir uma ponte entre aquilo que não entendo e aquilo que preciso compreender.
Muitas vezes as pessoas enxergam apenas o resultado final. Veem a resposta pronta, o trabalho realizado, a graduação concluída ou a demanda atendida. O que normalmente não percebem é o caminho percorrido para chegar até ali.
Não veem as releituras dos textos, as dúvidas silenciosas, as interpretações equivocadas, as pesquisas realizadas e o enorme esforço mental necessário para transformar incertezas em compreensão.
Hoje não considero essas experiências como fracassos ou limitações. Elas fazem parte da minha forma de perceber o mundo.
O autismo não me impediu de estudar, trabalhar, casar, tocar música ou construir minha trajetória. Apenas fez com que eu percorresse alguns caminhos de maneira diferente.
E talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que aprendi ao longo da vida: compreender o mundo nem sempre foi fácil para mim, mas a curiosidade e a vontade de aprender sempre foram maiores do que as dificuldades.
Por isso continuo pesquisando, perguntando, estudando e tentando entender aquilo que muitas vezes parece óbvio para os outros.
Afinal, cada nova compreensão representa mais do que uma resposta encontrada. Representa uma pequena conquista na longa jornada de aprender a traduzir um mundo que nem sempre fala de forma direta, mas que, aos poucos, fui aprendendo a compreender.

Comentários
Postar um comentário