Sempre acreditei que, para viver em sociedade, precisamos encontrar um equilíbrio entre o que sentimos por dentro e o que o mundo espera de nós. Para mim, que sou autista diagnosticado tardiamente, entender esse “universo social” nunca foi simples. Eu não aprendi com naturalidade a “ler” as regras não ditas da convivência. Desde pequeno, o barulho das conversas, o toque inesperado, os olhares longos, tudo isso me causava um incômodo que poucos compreendiam.
Mas ao longo da vida, fui percebendo que a sociedade também é feita de normas que ajudam a manter esse equilíbrio. Normas que, embora às vezes nos pareçam duras ou desconectadas de nossa essência, existem para evitar o caos e nos proteger. O sociólogo Émile Durkheim chamou isso de "coesão social", e explicou que quando essas regras se rompem, entramos num estado de desordem: chamado anomia. Já vivi isso no meu mundo interior, quando sentia que tudo estava confuso, e também observei em ambientes públicos e profissionais, quando as pessoas pareciam não se respeitar.
Ao mesmo tempo, aprendi que não devemos nos prender apenas às derrotas. Quantas vezes pensei que não conseguiria seguir em frente? Desisti de cursos na universidade porque não conseguia lidar com o ambiente barulhento e socialmente exigente. Mas também voltei, persisti, me formei e hoje trabalho no serviço público. Enfrentei minhas barreiras sem negar que elas existiam. Não fui “forte o tempo todo”, fui verdadeiro, fui humano, fui eu.
Esse “universo social” de que falo é mais do que regras: é a própria vida em sociedade. É o hospital onde as mães ficam com seus filhos internados. É a sala de aula onde minha esposa, professora apaixonada, dedica seu amor ao ensinar. É a música que me ajudou a me conectar com as pessoas quando as palavras me falhavam. É o meu blog, onde escrevo para não me perder de mim mesmo.
Mas para transformar esse universo, é preciso começar por dentro. Saber quem somos, acolher nossas limitações e reconhecer também nossas forças. Tenho a síndrome de Asperger, mas tenho também sensibilidade, memória, disciplina e amor por tudo que é sincero. Isso me faz um agente de transformação, mesmo que de forma silenciosa.
Durkheim diria que toda ação individual tem um efeito coletivo. E acredito nisso. Quando cada pessoa começa a se responsabilizar pelo seu papel no mundo, sem se esconder atrás de desculpas, nem se prender às máscaras da sociedade, esse universo social se torna mais justo e mais humano.
Do ponto de vista da Sociologia, a convivência entre diferentes exige normas claras, sim, mas também empatia com os diferentes modos de ser. A sociedade precisa aprender a acolher quem não se encaixa no “molde” tradicional. Pessoas autistas, como eu, não são avessas à sociedade: muitas vezes são machucadas por ela, por falta de compreensão e adaptação.
Regras são importantes, mas só fazem sentido quando têm um propósito humano. A verdadeira mudança começa quando deixamos de ver o outro como um “desvio” e passamos a enxergá-lo como um universo inteiro. Um universo que, mesmo diferente, tem muito a contribuir.
Portanto, construir um universo social saudável é uma missão de todos nós. Começa no respeito, passa pela escuta, e se completa no amor. E o amor, esse sim, é a regra mais sábia de todas, mesmo quando não está escrita.

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