Uma jornada de silêncio, Som e Serviço Público

 

Desde criança, carrego comigo uma característica que muitos não compreendem: o silêncio. Não o silêncio da paz, mas o da introspecção, do isolamento, do ruído interno que grita enquanto o mundo lá fora fala alto demais.


Na escola, nas reuniões de família, nos aniversários — eu sempre preferi observar a participar. A confusão dos sons, os olhares cruzados, a exigência de falar para ser aceito... tudo isso me sufocava. Eu era o menino quieto, que fugia das interações sociais. Só que havia algo que me conectava com o mundo, sem me obrigar a enfrentá-lo de frente: o desenho e a música.

Foi na música que encontrou sua voz. Primeiro no violão... depois com o saxofone.

O Som Que Me Libertou

Foi no saxofone e no violão que encontrei uma linguagem própria. As notas diziam o que eu não conseguia expressar. A música não cobrava contato visual, não exigia respostas rápidas, não julgava meu jeito de ser.


Ela me salvou. Me ajudou a conquistar o pouco de convivência que tenho hoje com as pessoas, principalmente depois de adulto. E quem segurou minha mão nessa travessia foi a minha esposa, professora, com uma sensibilidade rara que soube me ler nas entrelinhas do silêncio.

O Serviço Público e o Desafio do Autista Invisível

Entrar para o serviço público foi outro desafio. A burocracia, os corredores frios dos órgãos municipais, os atendimentos ao público... tudo me assustava. Mas, com o tempo, descobri que eu poderia usar minha forma diferente de ver o mundo como uma força, não uma limitação.


Hoje, como Técnico de Gestão Pública, contribuo com o município de Londrina, mesmo que nem todos saibam que por trás do meu crachá há um autista adulto tentando se equilibrar entre o mundo interno e o externo.

Educação, Estratégia e Representatividade

Minha formação em Ciências Sociais, minhas especializações em Gestão Hospitalar e Serviços de Saúde, Direito Administrativo, Administração Pública e Gestão Estratégica e Sociologia, são ferramentas que me ajudam a construir uma ponte entre o autismo e a gestão pública.


Atualmente estou concluindo MBA em Administração Pública onde desenvolvo um TCC sobre a importância da família acompanhante na hospitalização de adultos autistas, misturando teoria, gestão e vivência real. Porque não basta conhecer o sistema — é preciso sentir na pele as falhas para propor soluções humanas.

Um Chamado ao Reconhecimento

Quantos autistas adultos estão no serviço público, trabalhando em silêncio, lidando com crises internas, mas entregando seu melhor? Quantos ainda são julgados como “friamente técnicos” ou “pouco comunicativos”, sem que se entenda que há um universo ali dentro?


Minha história é uma entre muitas.

Amiga e Companheira 

Foi ao lado de Márcia — minha amiga, esposa, companheira, professora e psicopedagoga dedicada — que aprendi a me relacionar com o mundo. Nos conhecemos na igreja, participando do mesmo grupo de louvor: ela como cantora, eu como músico, tocando violão, guitarra e saxofone. Começamos a conversar por telefone e, com o tempo, pessoalmente. Por causa do meu jeito mais introspectivo, nosso encontro levou um tempo para acontecer de verdade. Mas Márcia teve paciência, carinho e amor para atravessar essa barreira. Com o tempo, namoramos e nos casamos.


Diagnóstico tardio

Com o tempo, veio a descoberta do diagnóstico tardio, mas também veio a compreensão e superação.


Vamos conversar?

Você também é autista ou conhece alguém no serviço público que passa por essas experiências?

Deixe seu comentário! Sua história também importa.


Desde 2012: serve Londrina como Técnico de Gestão Pública com dedicação e empatia.

Hoje, transforma sua própria história em pesquisa e luta: por uma gestão pública que compreenda e acolha o autismo.








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